A garota de Utah

  17 de fevereiro de 2019      17:34       Por

O que você fazia aos 9 anos de idade? Provavelmente muitos de nós responderíamos que estávamos indo para a escola, jogando bola com os amigos, brincando de bonecos ou mesmo jogando o último jogo do Playstation 2 (Playstation 1, no caso deste que vos escreve). Com certeza ninguém diria que estava mudando o país. Isto seria verdade, se você não fosse a personagem deste texto: Samantha Gordon.

Samantha Gordon é uma menina que completará 16 anos na próxima quinta-feira, dia 21 de fevereiro, mora em Utah, tem amigos, gosta de mexer no celular e pratica esportes como qualquer adolescente saudável dos dias de hoje. Mas o que a torna tão especial foi algo que ela fez, provavelmente sem nem ter noção de que estava mudando o país na época. Ela fez simplesmente porque gostava. Ela jogou futebol americano.

Nos Estados Unidos as mulheres praticam todos os esportes com iguais condições do que os homens. Futebol, vôlei, basquete, hóquei no gelo, esgrima, lacrosse, natação, atletismo, tênis. Basta ver o quadro de medalhas de qualquer Olimpíada que você constatará uma coisa rapidamente: Esporte nos Estados unidos é coisa séria. Mas isso não se aplica ao esporte mais popular da terra do Tio Sam: O futebol americano. Pela natureza mais física do jogo, o esporte nunca deu muita atenção para as mulheres que queriam praticá-lo na modalidade tackle, onde as trombadas são constantes e valorizadas.

Mas isso está mudando.

Samantha começou participando de pequenos exercícios com seu irmão mais velho no time da escola, e se saía muito bem contra os garotos. Sua presença nos testes pós treinos era tão constante que virou uma tradição da equipe. Até que o treinador do time chegou com a ideia: Por que você não joga também ao invés de ficar só nos exercícios? A chama do esporte havia sido acesa. Samantha topou o desafio. Ela entrou para um dos times locais, jogou de igual para igual com os garotos, se tornou viral na internet com um vídeo feito por seu pai, anotou mais alguns touchdowns contra os garotos e, em março de 2015, ela se tornou uma membra fundadora da primeira liga totalmente feminina de futebol americano tackle em Utah.

Em 2019 ela ganhou maior repercussão após aparecer em um comercial que celebrava as 100 temporadas da própria NFL que foi veiculado durante o intervalo do Super Bowl LIII entre New England Patriots e Los Angeles Rams. No vídeo, ela aparece no final, provocando o cornerback Richard Sherman e passando a bola para o running back Saquon Barkley. A Kickoff Brasil, através do redator Yuri Godoy, entrou em contato com Samantha para tentar entender como uma garota de Utah se tornou Samantha Gordon.

Yuri (Y) – Boa noite Samantha, obrigado por retornar o contato. Me confirme uma coisa, por favor. Você viu seu comercial no carro voltando de um jogo de futebol do colegial?

Samatha (S) – Boa noite, Yuri. Sim, eu tinha um campeonato no Colorado no fim de semana do Super Bowl, mas as estradas estavam muito cheias e nós ficamos meio que presos num posto de gasolina, porque estava nevando muito. Então eu tive que assistir ao jogo no meu celular no caminho de volta.

Y – Ah, bacana. Vocês venceram?

S – Ah não, eu queria que os Rams ganhassem.

Y – Não, o seu campeonato.

S – Ah, o meu campeonato. Ah, nós tivemos um desempenho meio abaixo. Nós pegamos uma chave difícil e não nos saímos como a gente queria.

Y – Entendo. Esportes são assim, as vezes você ganha, as vezes você perde. Como foi gravar o comercial?

S – Gravar foi bem bacana. Nós fomos para Los Angeles e eu não havia visto o roteiro até quando eu cheguei no hotel. E foi bem bacana ler o roteiro e ver todos os jogadores que eu “estaria junto”, e o quão grande seria esse comercial. Então eu cheguei no set e vi os diretores, as câmeras e todo mundo ajudando, o bolo gigante destruído, as mesas quebradas… Foi super divertido filmar. E contracenar com Richard Sherman e Saquon Barkley foi super divertido e eu gostei muito.

Y – Sherman e Barkley foram os únicos jogadores que você conheceu?

S – Sim, eles gravaram todo mundo em dias diferentes e eles foram os únicos que gravaram comigo.

Y– Entendi. E como você começou no futebol americano e no futebol? Como foi seu primeiro contato com os esportes?

S – Quando eu comecei a jogar futebol americano eu tinha apenas 9 anos. E eu só comecei a jogar porque meu irmão mais velho jogava. É até engraçado, eles costumavam apostar corrida após os treinos, e eu corria e ia bem com o time, isso meio que se tornou uma tradição. Até que o treinador chegou para mim e disse que eu deveria tentar jogar futebol americano com tackle, e isso me deu a ideia. Então eu comecei a jogar futebol americano com os garotos, foi daí o vídeo viral comigo jogando aos 9 anos de idade (Vídeo abaixo). Aí eu continuei jogando por mais algumas temporadas e então eu comecei essa liga de futebol americano com tackle feminino.

Y – Bacana. Qual a parte mais difícil de se jogar com os garotos?

S – Pra mim a parte mais difícil, assim que eu entrei no time, quando eu consegui provar que eu conseguia jogar, foi tranquilo, mas durante as seletivas, eu treinei por uns 6 meses pra seletiva, porque eu queria entrar para um dos melhores times, e eu fui a melhor nos testes de agilidade, fui muito bem nos testes de contato, eu pensei que ia conseguir entrar pra um desses times top de linha, mas eu acabei sendo escolhida em 75 posição por um dos times da prateleira debaixo, e isso me chateou um pouco. Porque comparado com os garotos eu tinha ido muito bem nos testes. Essa foi a parte mais difícil, não conseguir entrar no time que eu queria. Mas eu segui daí e queria provar que os técnicos estavam errados por não me escolherem.

Y – Como você vê o futuro do futebol americano feminino? Você que iniciou a sua liga de tackle feminino, certo?

S – Sim. Nós temos essa liga de futebol americano feminino, ela começou em março de 2015 com apenas 50 garotas. E na 4ª temporada, que foi ano passado nós tínhamos 320 garotas jogando. Nós crescemos rapidamente, o que é muito bom. Nós recentemente processamos alguns distritos escolares aqui na área por discriminação (Lei civil americana chamada Title IX), porque deve haver participação igual de homens e mulheres praticando esportes colegiais, e há essa diferenciação principalmente no futebol americano com tackle. Então isso é um processo demorado que nós estamos passando agora. O juiz decidiu em nosso favor em 2 dos 3 requerimentos, então nós temos que provar esse último tópico. Como eu disse, é um processo demorado e nós vamos ver onde isso vai dar.

Y – É um processo demorado, a justiça.

S – Sim, com certeza.

Y – Você tem 15 anos de idade agora, certo?

S – Isso.

Y – O que você pensa para o futuro? Você já pensou em jogar futebol americano na universidade?

S – Bom, eu não me vejo conseguindo jogar futebol americano universitário ou mesmo na NFL contra os garotos, eu nem jogo futebol americano colegial com os garotos. Eu jogo nessa nossa liga feminina, e é basicamente pela diferença física que existe entre homens e mulheres. Na minha idade, eu tenho 1,52m e 45Kg, e se eu tentar jogar contra os veteranos do colégio que são o dobro do meu tamanho eu não vou me sair muito bem. Então meu objetivo não é entrar na NFL, mas sim dar para as garotas a oportunidade de jogar contra outras garotas como em qualquer outro esporte.

Y – Mas você não gostaria de iniciar uma liga de futebol americano universitário feminina? Como você fez no seu distrito?

S – Eu acho que o futebol americano feminino com certeza tem o potencial para chegar no nível universitário e mesmo profissional como na NFL, mas isso é algo que levará algum tempo para acontecer. Mas isso com certeza é um objetivo, de fazer isso crescer e se espalhar pelo país.

Y – Entendo. Você disse que queria inspirar outras garotas e mostrar que elas também conseguem jogar futebol americano. Como você se sente sendo uma inspiração para outras garotas ao redor do país e talvez até ao redor do mundo agora?

S – Eu acho que é demais que eu consiga fazer uma mudança no mundo e na vida das pessoas, fazendo o que eu gosto. Eu acho muito legal eu ter essa oportunidade de inspirar outras pessoas. Eu amo a ideia de que eu posso ir e mudar a vida de alguém.

Y – Você se consideraria meio que uma Jackie Robinson (Primeiro negro a cruzar a linha racial no baseball nos anos 40) do futebol americano feminino?

S – Eu meio que poderia dizer algo assim. Se você pensar o futebol americano feminino é a única área esportiva que ainda não se tornou algo grandioso. Eu sei que não sou só eu, que há outras garotas por aí quebrando essa barreira também. Eu sei que não sou a única, mas é muito legal poder me comparar com alguém como ele, uma desbravadora.

Y – Última pergunta. Qual seu palpite para o Super Bowl LIV?

S – Eu sou torcedora dos 49ers, então queria que eles ganhassem, mas eles não estão tão bem assim, então eu diria o Green Bay Packers.

Samantha Gordon sem dúvidas é uma garota especial e determinada. De riso fácil e simpática, afinal, ela rapidamente respondeu ao contato para dar uma entrevista para um site brasileiro que falava sobre a NFL do qual nunca havia ouvido falar. Com certeza ela terá um futuro brilhante pela frente e, no que cabe a nós da Kickoff Brasil, sempre desejaremos o melhor para ela, e que ela continue quebrando barreiras onde quer que vá.

Esperamos ver mais de você no futuro, Samantha.