Analisando o jogo através de jogadas: Buccaneers vs. Saints

Na semana 1 o New Orleans Saints recebeu o Tampa Bay Buccaneers no Superdome para o principal jogo da tarde de domingo. O fato de ser um clássico confronto de divisão já representava motivo suficiente para toda a empolgação. Mas, além disso, o jogo contou com a estreia do ex-quarterback do New England Patriots, Tom Brady, e do seu antigo companheiro de time, o tight-end Rob Gronkowski. Do outro lado da bola, o veterano QB Drew Brees liderava o time da casa, os Saints, que venceram a divisão na temporada passada. Numa disputa muito emocionante entre dois ataques talentosos contra duas defesas poderosas, New Orleans venceu Tampa Bay por 34 x 24. 

Começando com o ataque de Tampa, o jogo corrido foi utilizado como um pilar para não sobrecarregar o seu quarterback. O time correu 26 vezes para 86 jardas e 1TD, tendo apenas 3,3 jardas, em média, por tentativa. 

Nessa jogada, os Buccaneers executam uma corrida Outside Zone, o que significa que o running back vai atacar o ombro de fora do TE (daí o nome outside) e os bloqueios serão feitos em zona.  

Bloquear em zona significa que o bloqueador não será responsável por um jogador pré-definido antes do snap, mas sim um gap específico. Devendo, então, bloquear qualquer jogador que surgir no seu gap. Caso o bloqueador não tenha um jogador no seu gap imediatamente à sua frente, ele ajudará o bloqueio do seu companheiro ao lado no sentido da corrida (nos chamados combo blocks) e depois subirá para o segundo nível, para bloquear os linebackers. É o caso do center Ryan Jensen, nº 66, e do calouro right tackle, Tristan Wirfs, nº 78.  

Além disso, na corrida em outside os bloqueadores empurram os defensores em sentido horizontal, em direção à sideline, abrindo espaço para que a corrida se desenvolva.  

Mas tanto o center quanto o right tackle não conseguem executar os seus bloqueios no segundo nível. O C Ryan Jensen não alcança o defensor com sua velocidade e o OT Tristan Wirfs se atrapalha no seu bloqueio duplo com o TE Rob Gronkowski, não avançando pro segundo nível. O resultado é que ambos os defensores, que seriam suas responsabilidades, conseguem atacar a corrida, evitando um ganho significativo de jardas por parte do RB Ronald Jones. 

Então, embora tenha usado bastante o jogo corrido e, em alguns momentos tenha sido eficiente para aliviar a pressão sobre o seu QB, a linha ofensiva do Buccaneers teve problemas na execução dos seus bloqueios, comprometendo a eficiência das jogadas. 

Mas quem se destacou nos bloqueios foi o TE Rob Gronkowski, que foi muitas vezes colocado em situações de bloqueio individual contra um edge e, mesmo assim, não permitiu penetração. 

Nessa jogada o Gronk é colocado para bloquear, sozinho, o Cameron Jordan, principal Edge do Saints e jogador de elite na posição. Normalmente um TE bloqueando um Edge é um matchup favorável para a defesa, já que o TE costuma ser “mais fraco” do que jogadores de linha como os offensive tackles, por exemplo. Mas não no caso do Gronk, que mantém o bloqueio firme durante todo o desenvolvimento da corrida. 

Pela dificuldade de produção no jogo terrestre, Tampa Bay foi comumente colocado em situações de terceira descida, obrigando Tom Brady a desenvolver o jogo aéreo.  

O QB veterano teve 23 passes completos de 36 tentados (63% de completude), para 239 jardas. Tendo um excelente corpo de recebedores à sua disposição, era esperado que Tom Brady distribuísse bem a bola. E foi o que aconteceu: esses 23 passes completos foram para 9 recebedores diferentes. Apesar do resultado do jogo, Brady teve momentos de brilhantismo, mostrando o potencial explosivo do ataque de Tampa Bay. 

Os Buccaneers utilizam, nessa jogada, um conceito “Sail” com play action, que consiste na combinação da rota “Go” do WR Scott Miller (1ª leitura), a “Corner” do WR Chris Godwin (2ª leitura) e a “flat” do RB Ronald Jones (3ª leitura). O play action serve prar fingir uma corrida para atrair a defesa, abrindo espaço para as rotas mais fundas. 

A “Go” aparece bem marcada, Brady, então, progride para segunda leitura e identifica uma janela pequena na “corner” do Chris Godwin. Brady então faz um passe preciso para o seu recebedor, com uma excelente colocação da bola, para um ganho de 29 jardas. 

Brady, porém, sofreu em muitos momentos. Apesar do potencial, sua performance nesse jogo deixou a desejar. O QB mostrou dificuldades de sintonia com os seus recebedores, já que não teve muito tempo de treino, alguns problemas de leitura e falta de precisão. 

Nessa jogada, Tampa Bay executa o que parece ser uma variação do conceito “Yankee”, que consiste na combinação da rota “Post” do WR Mike Evans se cruzando com a rota “Over” do TE Rob Gronkowski, e, no meio do campo, uma rota “Dig”, aqui executada pelo WR Chris Godwin.  

O objetivo desse conceito é deixar a defesa sobrecarregada, atacando uma mesma zona com duas rotas se cruzando. 

Na defesa, os Saints rodam uma “Cover 1 Man”, que consiste em um Safety, nesse caso o Marcus Williams (azul), cobrindo o fundo do campo, enquanto os outros defensores cobrem mano-à-mano os recebedores. Por ter mandado apenas 4 jogadores na pressão, o front dos Saints ficou com um LB sem um recebedor para marcar individualmente, tornando sua responsabilidade recuar para cobrir a zona no meio do campo, tentando cortar a linha de passes naquela região. 

Mas os Buccaneers utilizavam, além da combinação básica conceito “Yankee”: uma option na rota “post” do Evans, que consistia em, dependendo da cobertura, parar a rota antes do corte pra dentro, transformando a “post” numa “hitch”. Foi o que o recebedor fez e, de acordo com o head coach Bruce Arians, foi a leitura correta da cobertura. 

Com nenhum recebedor significativamente aberto, por conta da boa marcação da defesa de New Orleans, o Brady, sentindo a pressão chegar, fez a leitura errada da cobertura, e, imaginando que o WR Mike Evans faria o corte pra dentro da rota “post”, acaba lançando um passe muito distante da posição do WR, gerando uma interceptação. 

A defesa dos Saints conseguiu enfrentar o talentoso corpo de recebedores de Tampa Bay durante todo o jogo, cedendo poucas janelas pra passes das quais o Tom Brady pôde cogitar explorar. 

Já no ataque, o time de New Orleans utilizou um plano de jogo semelhante ao do Buccaneers, correndo 34 vezes pra 82 jardas e 1 TD, tendo uma média pequena de apenas 2,4 jardas por tentativa. 

Aqui os Saints executam uma Inside Zone, que funciona com o RB correndo pelo interior da linha, atacando, nesse caso, o gap A, que fica entre o Center Erik McCoy e o Left Guard Andrus Peat. Os bloqueios se desenvolvem em zona da mesma forma que a Outside Zone (explicada mais acima), mas com os bloqueadores empurrando os defensores em sentido vertical, para o fundo do campo. 

A linha ofensiva de New Orleans, porém, tem dificuldade em dominar a linha de scrimmage nos bloqueios duplos, o que atrasou o avanço do RT Terron Armstead e do C Erik McCoy pro segundo nível, permitindo que os LBs dos Buccaneers limitassem a corrida para um ganho de apenas quatro jardas. Isso mostra que o ataque dos Saints enfrentou o mesmo problema do ataque adversário em não conseguir dominar os bloqueios para desenvolver o jogo terrestre. 

No jogo áereo, Drew Brees se mostra ainda um quarterback muito eficiente, tendo 19 passes completos de 31 tentados (61% de completude). O esquema ofensivo dos Saints se baseia em passes curtos e rápidos, aproveitando a capacidade de Brees de soltar a bola sem demora e com bastante precisão. 

Nessa jogada, New Orleans utiliza uma variação do conceito de “4 Verticals”, com o TE Jared Cook fazendo uma rota “Curl” e o WR Emmanuel Sanders executando uma “Return”. Brees imediatamente faz a leitura do espaço entre as zonas, que foi ocupado pelo TE na “Curl”, e lança um passe rápido pra um ganho de 10 jardas. 

Além do esquema seguro de passes curtos que funciona bem pra esse ataque, um diferencial pra vitória do time comandado pelo HC Sean Payton é a criatividade das chamadas, o que tornou New Orleans mais eficiente na red zone. 

Nessa jogada, os Saints executam uma Power Read com o RB Alvin Kamara como QB, recebendo o snap direto. Nesse conceito, o Kamara faz a leitura do defensor marcado. Dependendo do que esse defensor fizer, ele escolhe entre correr pelo miolo da linha ou entregar a bola pro também RB Ty Montgomery,  que corre pela lateral. 

O defensor se movimenta para fechar a lateral, escolhendo marcar a corrida do RB Ty Montgomery. O Kamara, então, corre pelo miolo da linha para um bom ganho de jardas. 

Mas, apesar de ter sido muito eficiente executando o esquema de rotas curtas que é característico do ataque do Saints, Drew Brees se mostrou muito conservador em arriscar passes mais longos. 

Nessa outra jogada os Saints executam, mais uma vez, uma variação do conceito “4 Verticals”. Perceba o TE Jared Cook fazendo uma rota “shallow” pra aproveitar a parte de baixo do campo. 

O WR Michael Thomas consegue ficar aberto no fundo, com o Safety ainda parado no meio do campo, em posição que não o permitira alcançar a linha de passe. Brees, então, lê o espaço no campo e até faz o movimento de lançamento, mas desiste e, mesmo com o recebedor aberto, acaba lançando no RB Alvin Kamara, que fazia a checkdown na rota “Flat”.

O resultado foi um ataque aéreo com produção contida e exageradamente conservador. 

Na secundária, os Bucs conseguiram, em alguns momentos, mostrar que têm uma defesa com talento suficiente pra conter os principais recebedores dos Saints.

Nessa jogada, Tampa Bay executa uma cover 1 man, com todos os CBs marcando os recebedores em mano-à-mano, com um único Safety no fundo do campo. 

No ataque, New Orleans executa duas rotas verticais que se cruzam, tentando criar tráfego entre os defensores pra abrir espaço pra um dos recebedores. O CB Carlton Davis ainda assim consegue manter a marcação forte no Michael Thomas e, quando a pressão chega, o Brees força um passe que não consegue ser completo. 

Através dessas jogadas pudemos identificar as tendências do ataque de Tampa Bay, em utilizar bastante o jogo corrido e arriscar alguns passes longos, quando colocado em situações de terceiras descidas, e do ataque do Saints, em continuar com seu esquema eficiente de rotas curtas e, também, fazer muita utilização do jogo corrido.  

Sobre os defeitos, o time comandado por Tom Brady sofreu com a falta de sintonia e alguns passes imprecisos do QB, que dificilmente ameaçava o fundo do campo. Já New Orleans demonstrou dependência excessiva nas rotas curtas, deixando de aproveitar, mesmo quando necessário, situações de passes longos. O que impediu algumas conversões de terceiras descidas, limitando o ataque. Tanto os Bucs quanto os Saints tiveram dificuldades em desenvolver o jogo corrido, o que acabou gerando muitas situações de terceiras descidas. Muito, também, por conta do excelente front de ambas as defesas. 

Já no lado positivo, os Buccaneers mostram que tem muito potencial ao fazer algumas big plays, e que tem uma defesa que vem numa crescente. Além disso, também tem uma secundária que, por vezes, conteve o potente ataque aéreo do Saints.

Já New Orleans, continua muito eficiente no seu esquema de rotas curtas. Além de contar com a excelente criatividade nas chamadas do seu coordenador ofensivo Pete Carmichael e do HC Sean Payton. 

Mateus Vinícius

Mateus Vinícius

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